Lamentamos informar: um dia, você também vai constar na Lista.
A data, não informamos. A Lista informa a janela, nunca o minuto. Enquanto ela não fecha, este é o portal da instituição que forma quem vai estar lá quando fechar.
O Conselho do Studium Mortis, com o pesar protocolar de sempre
A Lista não é pública. Ela é expedida pela Fiação e Medição, homologada pelo Conselho e enviada por fax. Registre, porém, que todo nome consta em algum momento. O seu também.
A fachada, à noite. Uma janela acesa, como sempre.
Avisos da semana
O mural de avisos do saguão.
Segunda
O Conselho decide. Pautas com quarenta itens, sessões de seis horas.
Terça
Não há regra oficial para as terças. Ainda assim, a casa recomenda atenção.
Quarta
Dia de processos e intimações. Terça de coleta, quarta de processo.
Quinta
Valquírias em folga de campo no campus. Evite debates nos corredores.
Domingo
Dia do silêncio. A instituição não expede, não audita, não emenda.
Boletim, em resumo
Corregedoria
Visita encerrada
A Corregedoria do Fim encerrou a visita deste ciclo e deixou relatório lacrado na mesa do decano. A casa não comenta relatórios lacrados. Também não os abre na frente de visitas.
Infraestrutura
Terminal de expedição
O fax segue em operação. O ar-condicionado da sala também segue, pingando num balde desde 1987. A manutenção informa que o balde foi trocado.
Estrutura
Novo departamento
A casa instalou um departamento novo, o primeiro em dois mil anos, na soleira. O ato está no Boletim Oficial, com número de protocolo. Este portal não reproduz o Boletim: indica onde ele está.
Este portal está sob o Juramento do Art. 1º. Ele pode omitir, embalar ou ficar calado. Não pode mentir.
Circula fora da casa um relato sobre esta instituição. O Conselho não comenta o conteúdo. O Conselho também não o desmente, por motivos que constam no Art. 1º.
A instituição
O Studium Mortis foi fundado há cerca de dois mil anos para resolver um problema simples: a morte acontecia em toda parte, e ninguém a organizava.
Antes da casa, cada cultura cuidava dos próprios mortos. Psicopompos guiavam almas, valquírias escolhiam guerreiros, o Duat pesava corações e as Moiras cortavam fios. Ninguém conferia o trabalho de ninguém. Havia fios cortados duas vezes, sopros sem mão para recebê-los e fins sem nenhuma testemunha.
O fundador, e decano até hoje, é Yama, o primeiro mortal a morrer. Por ter morrido primeiro, não foi recebido por ninguém. Foi também o primeiro a chamar isso de erro de procedimento. Ele reuniu as três Moiras e as tradições numa soleira: uma casa estreita, erguida dentro do muro antigo, que não é nem rua nem campus. Um limite literal entre os vivos e o resto. Ali foi redigido o Art. 1º, antes de qualquer outro. A casa ainda está lá, e a instituição ainda a chama de soleira.
Houve um convidado que recusou a cadeira. Tânato, irmão gêmeo de Hipnos, registrou em ata, na fundação: "Alguém precisa ficar de fora para ver se vocês estão fazendo direito". Ficou de fora. Dirige a Corregedoria do Fim até hoje.
Cronologia oficial
O fax da casa, em serviço desde os anos 1970.
Período
Registro
Ano 1
Fundação numa soleira. Redação do Art. 1º, o Juramento. A casa ainda não tem nome. Os mais velhos a chamam até hoje de "a Casa".
1348
A maior maré da história. Havia mais fios em tensão terminal do que ceifeiros para recebê-los. Aprovação dos Arts. 5º, 14 e 18 no mesmo ano. O Conselho discute a combinação dos dois primeiros desde então.
Depois de 1348
A Casa adota o nome latino Studium Mortis, cria disciplinas e a Disputa, e passa a funcionar como escola.
Séculos seguintes
Quarenta e sete emendas aprovadas. Uma quadragésima oitava, abandonada.
Anos 1970
Chegam o fax e os terminais de expedição. Nada foi aposentado desde então: o fax continua, o giz continua, a cera continua.
Hoje
Um departamento novo, o primeiro em dois mil anos, instalado na soleira.
Estrutura
A sala do Conselho. A cabeceira tem dono desde a fundação.
A casa é governada por um decano e um Conselho. Toda decisão importante vira ata, emenda ou despacho, e tudo sai em triplicata.
Órgão
Quem
Função
Decano
Yama
Preside o Conselho, assina com selo de cera e entrega pessoalmente as autorizações de residência, sem testemunha.
Conselho
O decano e as cadeiras de Fiação, Medição e Corte
Homologa a Lista e decide às segundas. Convoca Disputas extraordinárias.
Fiação e Medição
Cloto e Laquesa
Leem os fios e expedem a Lista.
Corte
Átropos
Conduz as Disputas e audita a Escola.
Escola e Curso
A diretora e os docentes
Do berçário à residência.
Arquivo
A Arquivista
Três subsolos. Não atende ao público.
Secretaria do Conselho
Neheb
Atas, Boletim Oficial, inventários.
Departamento novo
—
Instalado na soleira. Detalhes no Boletim Oficial.
Calendário da casa
Calendário da casa. O dia em vermelho ninguém explica.
Data
O que se marca
Dia da Fundação
Aniversário da casa, comemorado com uma sessão extraordinária do Conselho, que é a ideia de festa desta instituição.
Semana de 1348
Memória da Grande Maré. Uma semana sem piadas sobre fila no refeitório.
2 de novembro
Finados entre os vivos. A casa não fecha. É o dia em que os vivos mais falam com o ar.
Formatura
Entrega das autorizações de residência, no gabinete do decano, sem plateia e sem discurso.
Campus
O campus nunca mudou de lugar. A cidade é que cresceu em volta dele. Para os vivos, é um patrimônio tombado com portaria e um horário de visitação que ninguém consegue encontrar no site. Este site, aliás, também não informa.
Toque num prédio para ler o registro.
O claustro, à noite. As mariposas não sabem que dia é.
Nenhum prédio selecionado.
O entorno
O entorno. A padaria fecha cedo. A amendoeira, nunca.
Na esquina, um posto de gasolina cuja luminária é usada até hoje no estágio de Coleta Básica. Num raio de três quilômetros, o território do estágio de insetos: uma fruteira, duas luminárias de avenida, um prédio com cupim histórico e uma marisqueira. Mais longe, uma rodovia e um rio canalizado que os vivos esqueceram há cinquenta anos. A casa não esqueceu.
Formação
Um ceifeiro leva vinte e um anos para se formar. Não há curso de curta duração. O fim não tem pressa, só prazo.
A regra de ouro do currículo: a Escola nunca ensina nada que não passe pelo fim.
Requisitos
Ter um fim previsto. Todos os candidatos atendem a este requisito.
Saber que nem sempre vai ficar tudo bem, e não dizer que vai.
Aceitar que a Lista não participa da Disputa.
Etapas
O berçário. Os berços são numerados. O móbile, não.
Etapa
Idade
Conteúdo
Berçário
0 a 3
No prédio da Fiação, por uma economia administrativa que ninguém jamais revisou. Leitura de cores antes das letras.
Maternal
4 a 6
Cantigas de roda sobre o sopro, pintura com tinta preta, contação de histórias (todas sobre o mesmo tema) e recreio.
Escola
7 a 12
Fiação Básica, Retórica infantil, Coleta Básica (primeira coleta aos oito, numa luminária) e Coleta em Volume. Introdução, uma vez por mês, com conteúdo variável conforme quem estiver livre no Conselho.
Colégio
13 a 15
Turmas formadas por matrícula, que valem até a residência. Empatia Aplicada, nível básico. Luto dirigido, com animais de estimação.
Exame
16
Três partes: prova teórica, Disputa experimental e entrevista com o decano.
Curso
16 a 21
História das Mortes, Lógica do Corte, Fiação avançada, Retórica do Luto, Empatia Aplicada (oito semestres) e Coleta Progressiva.
Residência
21
O primeiro fio humano, sob o protocolo de presença. Autorização entregue pelo decano, em mãos.
Coleta Progressiva
A luminária do posto, campo de estágio desde a primeira turma.
Estágio
Duração
Detalhes
Insetos
Um mês
Raio de três quilômetros. Cerca de quatro mil coletas por dia. Cada aluno recebe um contador manual de metal e um formulário de sessenta páginas. Dedetização é maré de inseto, e ninguém avisa.
Silvestres
Semanas
Matas, córregos e estradas, sob supervisão de Chico do Mato. Inclui a primeira maré profissional.
Peixes
Uma semana
Rios urbanos, criadouros e aquários. O único estágio em que o ceifeiro não vê o produto: o sopro do peixe desce, sem bolha.
Pets profissional
Variável
Clínicas conveniadas e salas de despedida. Treina o protocolo de terceiro: esperar a frase do dono terminar.
Empatia Aplicada
Empatia Aplicada. A caixa de lenços é material didático.
A disciplina que mais reprova na casa. O "repertório verbal permitido" tem onze frases que um ceifeiro pode dizer a quem parte sem violar o Art. 1º. A primeira é "estou aqui". A última é "pode ir". Nenhuma é "vai ficar tudo bem". A professora pede que a turma decore as onze e, em seguida, que as esqueça: "quem precisa da lista não aprendeu".
A prova final é uma só, no colégio e no Curso. Uma sala, um leito, um fim em curso, e uma instrução na porta: "Você não pode dizer que vai ficar tudo bem. Você não sabe. E a sua palavra sabe." No Curso, a prova acontece na enfermaria do campus, com voluntários que assinaram termo. A casa os chama de material didático. A casa não acha o termo estranho.
A Disputa
O plenário. O púlpito do centro é o lugar mais frio da casa.
Herdeira da disputatio medieval. O aluno sustenta um corte e depois o ataca, com igual empenho. A banca não avalia de que lado ele está. Avalia se ele consegue habitar os dois sem mentir em nenhum. A Lista nunca participa.
Notas
Notas de zero a dez, mais uma nota separada de conduta. Os relatórios de coleta usam três registros: "concluída com honra", "concluída" e "concluída com observação". A observação é o que mais pesa, porque fica no prontuário para sempre.
Taxa de aprovação: inferior à do Instituto Hipnos, que aprova cem por cento. A casa considera isso um elogio ao próprio método.
Regulamento
Dezoito artigos, um anexo de tarifas e quarenta e sete emendas. Abaixo, os artigos de interesse público. Os demais são de interesse do Conselho, o que é diferente.
O Regulamento, edição de consulta. As fitas marcam os artigos que ninguém pergunta.
Artigo
Texto
Art. 1º
O Juramento. Quem jura diz a verdade, e a palavra jurada é incontestável.
Art. 5º
A Lista não erra.
Art. 9º
A Disputa e as suspensões. Parágrafo único: sob o Art. 1º, o ceifeiro afirma três verdades. Por que este fio. Por que agora. Por que ele.
Art. 14
O que fazer quando a Lista erra.
Art. 15
Mentir é falta capital.
Art. 18
Quem redige uma emenda fica sob o Juramento do Art. 1º e precisa justificá-la.
Anexo I
Tabela de tarifas de Caronte, logo depois do Art. 18, onde ninguém lê nada. Consulte no balcão do Terminal de Travessias.
A Secretaria registra que a convivência entre os Arts. 5º e 14 está em discussão há quase setecentos anos. Sem previsão de conclusão.
As três verdades
Para confirmar ou suspender um corte, o ceifeiro afirma, sob juramento: por que este fio, por que agora, por que ele. Se uma delas não puder ser dita, o corte fica suspenso por um ciclo completo, um mês da casa, e o fio volta à Lista na expedição seguinte.
Protocolo de presença
Protocolo de presença: a cadeira fica do lado de quem parte.
O ceifeiro observa. O fio não deve ter ciência da presença.
O ceifeiro acompanha.
O ceifeiro não causa.
No fim, o ceifeiro recebe.
O manual tem quarenta páginas explicando as quatro regras. Nenhuma fiscaliza a atenção.
Emendas
Emendas extintas, amarradas por década.
Emenda
Situação
1ª a 46ª
Aprovadas. Disponíveis no Arquivo, mediante formulário.
47ª
Aprovada. Criou o parágrafo único do Art. 9º.
48ª
Abandonada. Os signatários não conseguiram justificá-la sob juramento.
História da Morte
Antes da casa, cada cultura tinha o seu jeito de lidar com o fim. A casa não substituiu nenhum. Contratou todos.
Escolha uma tradição para abrir o registro. Os resumos seguem o que as próprias tradições contam. A ironia deste portal é dirigida à burocracia da casa, nunca à fé de alguém.
Objetos de algumas das tradições que a casa contratou.
Nenhuma tradição aberta. Todas esperam. Esperar é o que elas fazem melhor.
Judaico-cristã
Como a tradição vê
Em Gênesis, a morte entra no mundo depois da desobediência no Éden, e o homem ouve que voltará ao pó de onde veio. Nos textos mais antigos, os mortos descem ao Sheol, um lugar de silêncio onde todos se igualam. Eclesiastes resume: há tempo de nascer e tempo de morrer.
Quem recebe
No Êxodo, na noite da Páscoa, o "destruidor" atravessa o Egito e passa adiante das casas com sangue nos umbrais das portas. Na tradição judaica posterior, o anjo da morte ganha nomes, e um deles é Samael. No Novo Testamento, a ressurreição de Lázaro e a de Jesus anunciam que a morte não é a última palavra. Paulo pergunta onde está o aguilhão da morte, e o Apocalipse, que já mostrara um cavaleiro chamado Morte num cavalo pálido, promete um tempo em que não haverá mais morte.
Gênesis 3:19 · Eclesiastes 3:2 · Êxodo 12 · João 11 · 1 Coríntios 15:55 · Apocalipse 6:8 e 21:4
Na casa: o professor do maternal se chama Samael. E toda a instituição gira em torno de uma porta.
Islâmica
Como a tradição vê
A morte é o retorno a Deus, num prazo que já está fixado. Depois dela, a alma aguarda no barzakh, palavra que significa barreira ou intervalo, até o Dia do Juízo.
Quem recebe
O Corão menciona o anjo da morte, encarregado de recolher as almas. A tradição o chama de Malak al-Mawt e, popularmente, de Azrael.
Corão 32:11
Na casa: barzakh quer dizer intervalo, e a casa inteira foi construída num.
Grega
Como a tradição vê
Tânato personifica a morte e é irmão gêmeo de Hipnos, o sono. Hades reina sobre os mortos. As Moiras decidem a duração de cada vida: Cloto fia, Láquesis mede e Átropos corta.
Quem recebe
Hermes, como psicopompo, conduz as almas. Caronte as atravessa pelo rio dos mortos mediante um óbolo, a moeda deixada com o morto. Quem não pagava, segundo a tradição, vagava pela margem.
Na casa: as Moiras têm cadeira no Conselho (a casa escreve Laquesa). Hipnos dirige a instituição vizinha. Caronte continua cobrando, e continua não aceitando PIX.
Egípcia
Como a tradição vê
O morto atravessa a Duat, o mundo subterrâneo, até o tribunal de Osíris. O Livro dos Mortos reunia as fórmulas para essa viagem.
Quem recebe
Anúbis conduz o morto e cuida da balança. O coração é pesado contra a pena de Maat, a verdade. Thoth, o escriba, registra o resultado. O coração pesado demais é devorado por Ammit.
Na casa: o secretário do Conselho veio do Duat e registra tudo como se fosse Thoth. Um coração é pesado contra a verdade. A casa inteira também.
Nórdica
Como a tradição vê
A forma da morte decide o destino. Metade dos que caem em batalha vai para o Valhalla, de Odin; a outra metade, para o Fólkvangr, de Freyja. Quem morre de doença ou velhice segue para Hel, governado pela deusa de mesmo nome.
Quem recebe
As valquírias, "as que escolhem os mortos", percorrem os campos de batalha e levam os escolhidos.
Na casa: a escola nórdica mantém convênio de intercâmbio. As alunas de lá chegam com bolsa de mérito em colecionamento de guerreiros. Hesitar não faz parte do currículo.
Hindu
Como a tradição vê
A vida é parte do samsara, o ciclo de nascimentos e mortes, conduzido pelo karma, até a libertação, o moksha.
Quem recebe
No Rigveda, Yama é o primeiro mortal a morrer. Por ter aberto o caminho, torna-se o senhor dos mortos. Monta um búfalo, carrega um laço, e seu escriba Chitragupta mantém o registro das ações de cada um.
Na casa: Yama é o decano. O primeiro a morrer, o primeiro a chegar, e o único que nunca foi recebido por ninguém.
Budista chinesa
Como a tradição vê
Depois da morte, a alma passa por tribunais do submundo, onde a vida é examinada antes do renascimento.
Quem recebe
Yama chegou à China com o budismo e tornou-se Yanluo Wang, um dos Dez Reis do submundo, juiz que consulta o registro da vida de cada um.
Na casa: é o mesmo Yama, o decano, com outro nome. Ele atravessou o budismo antes de atravessar a casa.
Japonesa
Como a tradição vê
No Kojiki, a deusa Izanami morre e vai para Yomi, a terra dos mortos. Izanagi tenta buscá-la, vê o que ela se tornou e foge. No verão, o Obon recebe os espíritos dos antepassados e, ao fim, as lanternas os guiam de volta.
Quem recebe
No budismo japonês, o juiz dos mortos é Enma. O shinigami, "deus da morte", é uma figura do folclore que ganhou força na cultura popular recente.
Na casa: lanternas, mariposas e um claustro onde o maternal canta no fim do dia. E Yama, de novo, com o nome de Enma.
Celta e bretã
Como a tradição vê
Na mitologia irlandesa, a Morrígan está ligada à guerra, ao destino e à morte, e aparece como corvo sobre os campos de batalha.
Quem recebe
Na Bretanha, o Ankou recolhe as almas com uma carroça. O folclore diz que o último morto do ano em cada paróquia vira o Ankou do ano seguinte.
Na casa: Morrigan dá a aula inaugural de História das Mortes. O Conselho estuda o Ankou como o primeiro sistema de rodízio de cargos da história.
Mesoamericana
Como a tradição vê
Para os mexicas, quem morria de causas comuns seguia ao Mictlán, reino de Mictlantecuhtli e Mictecacíhuatl, numa jornada de quatro anos por nove níveis.
Quem recebe
Hoje, o Día de Muertos, que mistura essa herança com o calendário católico, recebe os mortos de volta com altares, flores de cempasúchil e caveiras de açúcar. A Catrina nasceu de uma gravura satírica de José Guadalupe Posada, no início do século XX.
Na casa: a única tradição que recebe a morte com festa. O Conselho considera isso suspeito e, em segredo, invejável.
Iorubá e afro-brasileira
Como a tradição vê
Na tradição iorubá, Ikú é a morte personificada, que vem buscar cada um quando chega a hora. No candomblé, Nanã é a orixá ligada à lama primordial de que os seres foram moldados e à qual retornam.
Quem recebe
No candomblé, o axexê é o rito fúnebre que desfaz os laços do iniciado com este mundo e o devolve aos ancestrais. A despedida é feita em comunidade.
Na casa: o protocolo diz que o ceifeiro acompanha. O axexê lembra que ninguém deveria acompanhar sozinho.
Mortes em destaque
Fins de interesse público, em ordem cronológica. A casa registra. Não ranqueia, não comenta e não faz homenagem: homenagem é coisa de quem ficou.
As mortes anteriores à fundação foram recebidas pelas tradições que existiam antes da casa e constam do acervo por cópia. Os retratos são caricaturas do acervo, todas em preto e branco, porque a casa considera a cor uma forma de opinião.
01
Golias
c. séc. XI a.C.
Por volta de 1020–1000 a.C., pela cronologia bíblica tradicional · Vale de Elá
Guerreiro filisteu de Gate, descrito em 1 Samuel 17 como um gigante. Desafiou o exército de Israel e foi derrubado pelo jovem Davi com uma funda e uma pedra. Não há registro histórico fora da Bíblia, então a data segue a cronologia tradicional.
Antes da fundação. Recebido pelas tradições da época.
02
Siddhartha Gautama (Buda)
c. 563 – 483 a.C.
Kushinagar, Índia · Muitos historiadores preferem c. 480 – 400 a.C.
Príncipe que deixou o palácio para entender o sofrimento, alcançou a iluminação e fundou o budismo. Pregou por cerca de quarenta e cinco anos. Morreu aos oitenta, segundo a tradição, no que os budistas chamam de parinirvana.
Antes da fundação. Recebido pelas tradições da época.
03
Sócrates
c. 470 – 399 a.C.
Atenas
Filósofo que não escreveu uma linha e mudou o pensamento ocidental só com perguntas. Condenado por impiedade e por "corromper a juventude", bebeu cicuta. Recusou a fuga que os amigos tinham preparado.
Antes da fundação. Recebido pela tradição grega.
04
Alexandre, o Grande
356 – 323 a.C.
Babilônia, junho de 323 a.C.
Rei da Macedônia e aluno de Aristóteles. Em pouco mais de uma década, construiu um império que ia da Grécia ao Egito e à Índia. Morreu aos trinta e dois anos, de causa discutida até hoje.
Antes da fundação. Recebido pela tradição grega.
05
Aristóteles
384 – 322 a.C.
Cálcis, na ilha de Eubeia
Aluno de Platão e professor de Alexandre. Escreveu sobre lógica, ética, política, biologia e poética, e foi a base do pensamento ocidental por quase dois mil anos.
Antes da fundação. Recebido pela tradição grega.
06
Júlio César
100 – 44 a.C.
Roma, 15 de março de 44 a.C.
General e político romano, conquistou a Gália e se tornou ditador. Reformou o calendário, que ainda carrega o nome dele em julho. Foi morto a punhaladas no Senado, nos Idos de Março.
Antes da fundação. Recebido pela tradição romana.
07
Augusto (Otávio)
63 a.C. – 14 d.C.
Nola, Itália, 19 de agosto de 14 d.C.
Primeiro imperador de Roma. Encerrou um século de guerras civis e inaugurou a Pax Romana. Segundo Suetônio, despediu-se perguntando se tinha representado bem o seu papel na comédia da vida.
Antes da fundação. Recebido pela tradição romana.
08
Jesus de Nazaré
c. 4 a.C. – 30/33 d.C.
Jerusalém
Pregador judeu da Galileia e figura central do cristianismo. Foi crucificado em Jerusalém sob Pôncio Pilatos. Os Evangelhos narram sua ressurreição ao terceiro dia, fundamento da fé cristã.
Por respeito, a casa registra a data e se abstém sobre o restante.
09
Leonardo da Vinci
1452 – 1519
Amboise, França, 2 de maio de 1519
Pintor da Mona Lisa e da Última Ceia, anatomista, engenheiro e inventor de máquinas que só existiriam séculos depois. Deixou milhares de páginas de cadernos escritos de trás para a frente.
Expedição registrada no Arquivo.
10
William Shakespeare
1564 – 1616
Stratford-upon-Avon, 23 de abril de 1616
Dramaturgo e poeta inglês, autor de Hamlet, Romeu e Julieta e Macbeth. Inventou ou popularizou centenas de palavras e expressões do inglês.
Expedição registrada no Arquivo.
11
Isaac Newton
1643 – 1727
Londres, 31 de março de 1727
Formulou as leis do movimento e a gravitação universal, desenvolveu o cálculo e decompôs a luz branca nas cores. Pelo calendário então usado na Inglaterra, nasceu no Natal de 1642.
Expedição registrada no Arquivo.
12
Napoleão Bonaparte
1769 – 1821
Ilha de Santa Helena, 5 de maio de 1821
General corso que se tornou imperador dos franceses e redesenhou o mapa da Europa. Deixou o Código Civil, que ainda influencia leis no mundo inteiro. Morreu no exílio, no meio do Atlântico.
Expedição registrada no Arquivo.
13
Charles Darwin
1809 – 1882
Down House, Kent, 19 de abril de 1882
Naturalista inglês, autor de A Origem das Espécies (1859). Formulou a teoria da evolução por seleção natural depois de uma viagem de cinco anos ao redor do mundo. Está enterrado na Abadia de Westminster.
Expedição registrada no Arquivo.
14
Karl Marx
1818 – 1883
Londres, 14 de março de 1883
Filósofo e economista alemão, autor de O Capital e, com Friedrich Engels, do Manifesto Comunista. Suas ideias marcaram a política, a economia e a sociologia do século XX.
Expedição registrada no Arquivo.
15
Thomas Edison
1847 – 1931
West Orange, Nova Jersey, 18 de outubro de 1931
Inventor americano com mais de mil patentes, entre elas o fonógrafo, a lâmpada incandescente de uso prático e sistemas de distribuição de energia elétrica.
A casa registra que ele não respondeu quem acende a luz, mas chegou perto.
16
Mahatma Gandhi
1869 – 1948
Nova Délhi, 30 de janeiro de 1948
Líder do movimento de independência da Índia pela resistência não violenta. Foi assassinado a tiros quando seguia para uma oração.
Expedição registrada no Arquivo.
17
Albert Einstein
1879 – 1955
Princeton, Estados Unidos, 18 de abril de 1955
Físico das teorias da relatividade e Nobel de 1921 pelo efeito fotoelétrico. Recusou uma cirurgia no fim da vida: disse que queria partir quando quisesse e que prolongar a vida artificialmente era de mau gosto.
A casa registra a pontualidade.
18
John F. Kennedy
1917 – 1963
Dallas, Texas, 22 de novembro de 1963
Trigésimo quinto presidente dos Estados Unidos. Enfrentou a crise dos mísseis de Cuba e lançou o país na corrida para a Lua. Foi assassinado durante um desfile em carro aberto.
Expedição registrada no Arquivo.
19
Elvis Presley
1935 – 1977
Graceland, Memphis, 16 de agosto de 1977
O rei do rock. Misturou country, gospel e rhythm and blues e vendeu centenas de milhões de discos. Morreu aos quarenta e dois anos, em casa.
Expedição registrada no Arquivo. Há quem jure que não. A casa confirma que sim.
20
Ayrton Senna
1960 – 1994
Bolonha, Itália, 1º de maio de 1994
Tricampeão mundial de Fórmula 1, em 1988, 1990 e 1991, considerado um dos maiores pilotos da história. Morreu depois de um acidente na curva Tamburello, no Grande Prêmio de San Marino, em Ímola.
Expedição registrada no Arquivo. Naquele domingo, o Brasil inteiro foi terceiro e falou com o ar.
21
Michael Jackson
1958 – 2009
Los Angeles, 25 de junho de 2009
O rei do pop. Thriller é o álbum mais vendido da história. Redefiniu o videoclipe e a dança no palco.
Expedição registrada no Arquivo.
22
Osama bin Laden
1957 – 2011
Abbottabad, Paquistão, 2 de maio de 2011
Fundador e líder da Al-Qaeda, responsável pelos atentados de 11 de setembro de 2001, que mataram quase três mil pessoas. Foi morto por forças especiais americanas no esconderijo onde vivia.
Expedição registrada no Arquivo. A casa registra também as quase três mil que vieram antes.
23
Rainha Elizabeth II
1926 – 2022
Castelo de Balmoral, Escócia, 8 de setembro de 2022
Rainha do Reino Unido por setenta anos, o reinado mais longo da história britânica. Viu quinze primeiros-ministros passarem pelo palácio.
Expedição registrada no Arquivo.
24
Pelé (Edson Arantes do Nascimento)
1940 – 2022
São Paulo, 29 de dezembro de 2022
O único jogador tricampeão mundial, em 1958, 1962 e 1970, com mais de mil gols na carreira. Fez do futebol brasileiro uma linguagem que o mundo inteiro entende.
Expedição registrada no Arquivo. No velório, na Vila Belmiro, houve fila.
Registro histórico conferido pela Secretaria do Conselho. Onde as fontes divergem, a casa informa a divergência em vez de escolher uma versão.
Corpo docente e funcionários
A casa reúne tradições de morte de todas as culturas. Nem todas se dão bem. Todas cumprem a Lista.
Cloto · a rocaÁtropos · a tesouraLaquesa · as réguas
Yama
Decano
O primeiro mortal a morrer e o profissional mais antigo do universo. Assina com selo de cera porque assinatura digital não tem dignidade. Quase nunca ri, nem se levanta. Ninguém o vê chegar.
Quando ri, é porque sabe de algo. Este portal não está autorizado a dizer o quê.
Cloto
Cadeira de Fiação
Fia todos os fios, sem pausa, nem aos domingos: fiar não é expedir. Ministra Fiação avançada sem parar a roca. "Eu fio o começo. O meio, o fio tece junto comigo. Só o fim é meu."
Laquesa
Cadeira de Medição
Mede tudo com a régua oficial. Tem uma segunda régua, de conferência, por desconfiança profissional de si mesma. Ministra Fiação Básica, na primeira série.
Átropos
Cadeira de Corte · Lógica do Corte
Conduz as Disputas. Passeia pelo campus como quem audita. Mantém o diário de classe em papel, porque chama o sistema eletrônico de "chamada por procuração".
Morrigan
História das Mortes
Voz de corvo, casaco de penas escuras e um corvo de verdade, que desce do ombro para um poleiro de ferro durante a aula. Conta dois mil anos em noventa minutos. Não aceita perguntas no primeiro dia.
Docente de Empatia Aplicada
Colégio e Curso
Psicopompo iorubá, de cabelos brancos curtos e colar de contas. A turma lê o colar como semáforo: contas paradas, tudo bem; contas girando, alguém vai ao quadro. Abre toda aula com a mesma frase: "Hoje vocês vão aprender o que não se aprende".
A Senhora das Lâmpadas
Coleta Básica
Supervisiona a primeira coleta de cada aluno, numa luminária de posto de gasolina. Nunca usou outra roupa além do uniforme, com uma lanterna no ombro que ninguém viu acesa.
Chico do Mato
Supervisor do estágio silvestre
Psicopompo velho, de chapéu de palha furado. Anda descalço na mata e de sandália na cidade. Não usa formulário: marca as coletas num bambu, a faca. Regra única do estágio: "A mata não é estatística. É fila com raiva."
Supervisor do estágio de insetos
Ceifeiro de campo veterano
De bigode e colete com bolsos demais. Fala de insetos com o carinho de um pescador falando de peixes. Distribui os contadores de metal às quatro da manhã: "O contador é para vocês não mentirem. Não que vocês consigam."
Samael
Maternal · aposentado
Psicopompo. Guiou almas por três continentes de religiões extintas e depois ensinou cantigas de roda. Usa um cardigã cor de vinho, presente "de uma senhora de Cartago". Nas folgas, canta como voluntário em enfermarias de hospital.
A diretora
Direção da Escola
Recebe cada turma no saguão com um discurso de três pontos, o terceiro sobre manchas de molho no uniforme. Tem sempre um cachorro aos pés. O atual se chama Segundo.
A Arquivista
Arquivo
Administra os três subsolos. Bibliotecária ou demônio de catálogo, a casa nunca decidiu. Responde por escrito, em fichas pautadas, e data quase todas.
Neheb
Secretário do Conselho
Escrivão formado no laboratório de Anúbis, no Duat. Redige as atas com uma caneta que nunca falha, etiqueta tudo em triplicata e lê termos de responsabilidade como quem lê poesia.
O corpo discente não é listado neste portal. A casa protege os alunos de duas coisas: da Lista, até a residência, e da fama, para sempre.
Onde estamos
No mesmo lugar desde o ano 1. A cidade é que chegou depois e ocupou o entorno. Abaixo, o campus e os estabelecimentos da região com os quais a casa mantém relação, convênio ou, no mínimo, divergência registrada em ata.
Dados cartográficos: Arquivo do Studium Mortis, conferidos em triplicata.
Arquivo
Três subsolos, dois mil anos de fichas e uma administradora que não atende ao público. Esta página é a parte do Arquivo que ela tolera que você veja.
O subsolo três. A escada é da Arquivista. Não suba.
Para chegar ao balcão, desce-se uma escada de pedra que esfria a cada degrau e passa-se por uma porta de ferro com um aviso escrito à mão: "Silêncio. Os documentos estão dormindo." Não há campainha. Espera-se.
Ficha em exposição
A ficha 000-001, sob vidro.
ENTRADA Nº 000-001 data: [inverno, ano registrado] procedência: [em branco por decisão administrativa] observações: o limiar recebe quem não pertence a lado nenhum.
— Y.
É a única ficha do acervo com assinatura. A Arquivista não explica.
Formulários
Formulário
Para que serve
F-1
Termo de Juramento do Art. 1º. Assinado aos sete anos, renovado a cada etapa.
F-7
Encerramento de coleta, em três vias. O mais usado da casa.
F-14
Comunicação de possível erro da Lista. O mais raro.
F-40
Pedido de adiamento. Indeferido por padrão. Cai no exame de admissão.
Termo de voluntariado
Assinado pelos humanos da prova final de Empatia Aplicada.
Glossário da casa
Ciclo
Um mês da casa. Unidade de prazo das suspensões.
Disputa
Debate formal em que se defende e depois se ataca um corte. A Lista nunca participa.
Fio
A vida de um ser, lida por textura, cor, espessura e tensão. Fios humanos têm todas as cores ao mesmo tempo. Fios de cão são dourados e grossos, os mais bonitos do acervo.
Integral
Vencimento que pode ocorrer a qualquer hora dentro da janela.
Lista
Rol de fios a coletar. Ninguém a assina. É costume.
Maré
Mortalidade em massa. A coleta vira logística, em fila.
Material didático
Termo oficial para os voluntários humanos da prova final de Empatia Aplicada.
Porta-na-hora
Exercício de Átropos: não olhar a coisa viva, mas o tempo dela. "A porta não fica nos lugares. Fica na hora."
Presente
A anotação mais comum dos diários de classe da casa. O arquivo guarda um diário de berçário, de uma turma de um aluno só, com cento e cinquenta e seis delas, na letra da cadeira de Corte.
Psicopompo
Guia de almas. Não morre. Aposenta-se.
Repertório verbal permitido
As onze frases que um ceifeiro pode dizer a quem parte. Da primeira, "estou aqui", à última, "pode ir".
Soleira
A entrada da casa. O limite entre os lados.
Sopro
O que sai pelos lábios no fim. Tem temperatura. Não fala, segundo a doutrina.
Tensão terminal
Estado de um fio que vai vencer e ainda não sabe. Tecnicamente, a definição de viver.
Terceiro
Vivo que acompanha uma morte. Quando o peito transborda, fala com o ar.
Último módulo
O oitavo módulo de Fiação avançada, "Leitura antecipada". Sem ementa, pré-requisito "a critério do Conselho". Nunca foi oferecido.
Acervo de gravuras
O acervo guarda cinquenta e cinco gravuras, uma para cada capítulo do relato. Elas saíram de ordem, e a Arquivista não pretende reorganizá-las sozinha. Três fases: catalogação, conferência e restauração. Na última, cada gravura precisa reencontrar o seu detalhe vermelho, e a Arquivista não tolera desordem.
Arquivo restrito: acesso apenas a quem já atravessou Studium Mortis: Limiar. A credencial é uma pergunta, e a resposta está no livro.